VIDEO LUCEM



A partir de novembro, há cinema nas igrejas do Algarve: o VIDEO LUCEM (Vejo Luz) regressa ao sul do país com sete cine-concertos, de entrada livre, em seis igrejas do litoral e serra algarvios e um cine-concerto ao ar livre.

A iniciativa do Cineclube de Faro integra o programa 365 Algarve para valorização da cultura na região durante os meses de época baixa e pretende, nesta segunda edição, homenagear as origens do Cinema, através da projeção de filmes mudos acompanhados por música ao vivo, desafios feitos a vários músicos.

Com o objetivo maior de proporcionar uma experiência sensorial irrepetível a turistas e locais, o Cineclube de Faro quer também contribuir para abrir ao público as portas, tantas vezes fechadas, do património histórico e religioso do Algarve. Este evento é uma parceria com a Pastoral da Cultura e a Pastoral do Turismo do Algarve.


PROGRAMA COMPLETO








9 de Novembro, Igreja de S. Francisco, Faro, 21h30

Entrada Livre


O IMIGRANTE e RUA DA PAZ de Charles Chaplin (EUA, 1917)

Musicado por MARIA JOÃO, JOÃO FARINHA e ZÉ EDUARDO


Duas das mais célebres - se não mesmo as mais célebres - curtas-metragens de Chaplin, O Imigrante e Rua da Paz (Easy Street) constituem um díptico maravilhoso da arte, do génio, do temperamento e dos valores desse grande autor. Tributo à América como "terra das oportunidades" para centenas de milhar de imigrantes no início do século, e quantas vezes para além disso, O Imigrante consegue ser um drama e uma comédia, uma reflexão e uma crítica, sobre aqueles que, nada tendo, vão de barco mar afora lutando por um futuro. Que o vagabundo Charlot lá tenha chegado e por momentos envergado o papel de polícia, dá origem a muitos gags em A Rua da Paz, o vilão Bully castigado amplamente por um cassetête com consciência social.

Hoje teremos o privilégio de assistir a uma criação única, original e irrepetível de acompanhamento musical improvisado pela extraordinária Maria João com João Farinha e a participação especial de Zé Eduardo.

Maria João, a mais genial cantora de jazz portuguesa e uma das mais extraordinárias do mundo, iniciou a sua discografia em 1983 embora tenha sido no trabalho com Aki Takase que deu largas aos criativos scats que são a sua imagem de marca musical. Regressada a Portugal inicia a sua intensa colaboração com Mário Laginha. Em 2009 abraça a música electrónica com o grupo Ogre, do qual faz parte o pianista João Farinha, com quem se apresenta hoje, juntamente com o consagrado contrabaixista Zé Eduardo.



7 de Dezembro, Igreja de S. Clemente, Loulé, 21h30

Entrada Livre

A MÃE de V. Pudovkin (URSS, 1926)

Musicado por CÚSTODIO CASTELO e convidados


A Mãe é invariavelmente colocado com um dos mais importantes filmes de todos os tempos, e não só da época do cinema mudo. Adaptação da obra literária homónima de Máximo Gorki, conta a história das lutas operárias pela melhoria das suas condições de vida, contra patrões desumanos e cruéis, e de uma mãe-coragem que parte da protecção angustiada do seu filho até se tornar a heroína de todos os combatentes. Pudovkin foi, a par de Eisenstein, o mais importante teórico da montagem cinematográfica naqueles anos em que o cinema dava os seus primeiros passos, e este seu filme é exemplo desse mesmo génio. Com interpretações poderosas, entre as quais ressalta a da inesquecível figura de Vera Baranovskaya no papel de mãe, contará com a criação ao vivo do genial guitarrista português Custódio Castelo, acompanhado por convidados seus, o que irá constituir um espectáculo de fabulosa originalidade.

Desde muito cedo que Custódio Castelo foi considerado um prodígio pela audaciosa abordagem da guitarra portuguesa. O seu talento foi reconhecido pelos mais exigentes fadistas, como D. Vicente da Câmara, Carlos do Carmo, Camané, Mariza ou Cristina Branco. A sua versatilidade levou-o a optar pela fusão da guitarra portuguesa com outras sonoridades e intérpretes, como Richard Galliano, Daniele di Bonaventura ou Olga Pratz. Para este concerto desafiou os algarvios Fad’NU e o contrabaixista Carlos Menezes.



13 de Janeiro, Igreja Matriz de Martim Longo, Alcoutim, 21h30

Entrada Livre

OS LOBOS de Rino Lupo (PT, 1923)

Musicado por NICHOLAS MCNAIR


Rino Lupo foi um dos mais interessantes realizadores estrangeiros ativos em Portugal na década de 1920 e que teve um lugar fundador na história do cinema mudo português. Os Lobos é um drama em ambiente rural rodado quase totalmente em exteriores, o que era extraordinário à época, e combinando atores profissionais e amadores, uma outra novidade também. Segundo João Bénard da Costa, Os Lobos constitui “uma obra ‘flamejante’, como se diz do gótico final, situada entre o hiper-realismo e o surrealismo, no vértice de uma estética do insólito que raras vezes, no nosso imaginário, terá tido tanta força e tanta singularidade.”

O filme tem o acompanhamento ao piano pelo enorme artista especializado em música para cinema mudo Nicholas McNair, que no caso interpreta a partitura original, recuperada, de António Tomás de Lima, composta em 1925 para esta mesma obra poderosa, inesperada e marcante.

Pianista e musicólogo. Professor na Escola Superior de Música de Lisboa desde 1988 e Diretor Artístico do seu Estúdio de Ópera 2011-2015. Criou música ao vivo para mais de 150 filmes mudos, na Cinemateca Portuguesa, no Festival Internacional de Cannes, e noutros locais. Gravou 8 CDs de improvisação. Colaborou como pianista e organista em numerosos concertos e gravações com o Coro e Orquestra Gulbenkian, além de muitos outros. Criou edições críticas de óperas de Gluck, Mazzoni, Leal Moreira, etc.



8 de Fevereiro, Igreja de Santiago, Tavira, 21h30

Entrada Livre



O VENTO de Victor Sjöström (EUA/SUÉCIA, 1928)

Musicado por FILIPE RAPOSO

 
Victor Sjöström é um dos mais relevantes génios do cinema mudo. Sueco, fez parte daqueles que, na Escandinávia, mudaram para sempre a forma de se fazer cinema, em particular com o uso dramático de exteriores ou, como no caso do filme O Vento, a utilização de um elemento natural como poesia da catástrofe, condutora da acção. Tendo iniciado a sua carreira em 1912, foi convidado para trabalhar nos EUA a partir de 1924, usando o nome de Victor Seastrom. Com O Vento, protagonizado por uma das maiores actrizes e divas do cinema da época, Lillian Gish, figura-se uma história de solidão, incomunicabilidade e progressiva loucura, num ambiente claustrofóbico que tanta influência vai ter em autores posteriores, como Ingmar Bergman. Será musicado ao vivo por Filipe Raposo, em órgão de tubos, perfeito instrumento para lidar com todas as subtilezas afectivas e torrentes emocionais desta obra-prima.

Filipe Raposo é pianista residente da Cinemateca Portuguesa desde 2004. Enquanto compositor, arranjador e pianista, trabalha desde 2001 com muitos dos principais nomes da música, do cinema e do fado portugueses (José Mário Branco, Sérgio Godinho, Carminho, Camané…). O objectivo de desenvolver a sua própria linguagem, onde música clássica, folk e jazz se cruzam, leva-o a procurar constantemente novos desafios como compositor e músico. Tocou na sessão inaugural da anterior edição de Video Lucem.



8 de Março, Igreja Matriz de Ferragudo, 21h30

Entrada Livre

RING UP THE CURTAIN de Harold Lloyd (EUA, 1919)

Musicado por JOÃO FRADE

 

SHERLOCK JR. de Buster Keaton (EUA, 1924)

Musicado por NOISERV



Em 2017 a incursão de Noiserv no universo cinematográfico aconteceu no festival PLAY em Lisboa, no qual musicou o filme que hoje se apresenta. Foi, pois com entusiasmo e naturalidade que o Cineclube de Faro contactou o músico para presentear o público algarvio com essa sua obra, numa renovada criação, dado o carácter excecional de ambos, filme e artista.
Buster Keaton é, a par de Charles Chaplin, o mais conhecido cómico do cinema mudo norte-americano. Protagonizando os filmes com uma cara onde nunca um sorriso despontava, vergava e continua a vergar os públicos de todas as idades com sorrisos e gargalhadas perante os geniais gags que inventou. Se este seu filme se passa num cinema, a curta-metragem que o antecede, de Harold Lloyd, é passada num teatro. É igualmente uma comédia muito divertida, que será acompanhada pelo acordeão de João Frade, música algarvio de projeção internacional.

Noiserv é um projeto musical de David Santos. Em 2008 edita o seu primeiro álbum, One Hundred Miles from Thoughtlessness, ao qual se seguem um EP e 2 outros álbuns, dos quais o último, 00:00:00:00, é definido como a banda-sonora para um filme que ainda não existe. É autor das bandas sonoras de José & Pilar, Noiserv (Sessão Dupla) e Tous les rêves du monde. João Frade, campeão mundial de acordeão, estudou na excecional escola CNIMA, em França, tendo uma carreira ímpar como solista e acompanhante.



6 de Abril, Sé de Silves, 21h30

Entrada Livre

DOURO, FAINA FLUVIAL de Manoel de Oliveira (PT, 1931)

Musicado por ANA DEUS & LUCA ARGEL

 

À PROPOS DE NICE de Jean Vigo (FR, 1930)

Musicado por VIVIANE & TÓ VIEGAS


“Sinfonia das Cidades” foi um género da década de 20 do século passado que inspirou Manoel de Oliveira a realizar a sua mítica primeira obra-prima, sobre a sua cidade natal, o Porto. Douro, Faina Fluvial teve a sua estreia em 1931 e marcou para sempre o cinema português e mundial, dada a inteligência de composição de imagem e de montagem, antigo e moderno em conflito. Um ano antes, um outro autor célebre, desta vez francês, Jean Vigo, fizera o seu pequeno mordaz documentário sobre Nice (À Propos de Nice), peça satírica sobre usos e costumes da burguesia daquela altura. As cantoras Ana Deus e Viviane, juntamente com os seus convidados, celebrarão na data do 62º aniversário do Cineclube de Faro estes filmes e o seu espírito.

Ana Deus, cantora e música, fez parte do emblemático grupo Três Tristes Tigres. Em 2011 cria, com Alexandre Soares, Osso Vaidoso, de música experimental e improvisada. Convidou Luca Argel, artista brasileiro com basta experiência na criação de bandas sonoras. Viviane nasceu em Nice. Dona de uma das vozes mais carismáticas da música portuguesa, iniciou a sua carreira musical em 1990 quando formou com Tó Viegas o grupo Entre Aspas, extinto em 2005, começando aí a sua brilhante carreira a solo.



30 de Maio, ao ar livre em Vila Real de Stº António, 21h30

Entrada Livre 

OS FAROLEIROS de Maurice Mariaud (PT, 1922)

musicado por DEAD COMBO


No encerramento desta 2ª edição de Video Lucem saímos das Igrejas ao encontro de um farol majestático, cuidando e dirigindo embarcações de dois países e todos os que cruzem os mares de Vila Real de Santo António desde 1923 (local sujeito a confirmação). Com a inspirada e inconfundível música dos Dead Combo criada ao vivo para acompanhar a projecção, iremos assistir ao filme de Maurice Mariaud Os Faroleiros (ou, mais propriamente, O Faroleiro da Torre de Bugio), um dos mais importantes realizados no nosso país na época do mudo e que era considerado desaparecido até ter sido descoberta uma sua cópia nos anos 90. Neste filme de 1922, um «drama-documentário» de que o realizador também foi argumentista e intérprete, Mariaud aborda uma história de um triângulo amoroso numa comunidade de pescadores, cujo conflito culmina num farol isolado do litoral. Filme a um tempo romântico e nostálgico, será uma despedida condigna, pela qualidade do filme e dos músicos, da participação do CCF no 365 Algarve.

Os Dead Combo são Tó Trips e Pedro Gonçalves. A dupla nasceu em 2003 na sequência de um convite para comporem Paredes Ambience, canção incluída no disco de homenagem a Carlos Paredes. Os 8 álbuns da banda editados até ao momento têm sido largamente elogiados em Portugal e no estrangeiro, recebendo vários prémios para “Álbum do Ano”, desde Lusitânia Playboys (2008), A Bunch of Meninos (2014) ou Cordas de Má Fama (2016). Um som ímpar, consistente e poderoso no panorama musical português.

 
 



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