TERCEIRO ANDAR | 17 ABR | 21H30 | IPDJ | PRESENÇA DA REALIZADORA


TERCEIRO ANDAR
Luciana Fina
Portugal, 2016, 62’, M/12

FICHA TÉCNICA
Realização: Luciana Fina
Montagem: Luciana Fina, Cláudia R. Oliveira
Fotografia: Helena Inverno, Luciana Fina, Rui Xavier
Som: Olivier Blanc, Emanuele Costantini, Miguel Cabral
Com Aissato Baldé e Fatumata Baldé
Origem: Portugal
Ano: 2016
Duração: 62’

FESTIVAIS
DocLisboa, Portugal '16
Torino Film Festival, Italy '16
Festival Cinema Africano, Asia e America Latina, Italy '17
Encontros de Cinema de Viana do Castelo, Portugal '17
Filmes do Homem - Festival Internacional de Documentário de Melgaço, Portugal '17
Arkipel Jakarta International Documentary and Experimental Film Festival 2017, Indonesia '17
SalinaDocFest Festival del Documentario Narrativo, Italy '16
MIDBO - Muestra Internacional Documental de Bogotá, Colombia '17


 
CRÍTICAS 
 
Um diálogo de afetos sobe as escadas de um prédio do Bairro das Colónias, em Lisboa. São as vozes de Fatumata e Aissato, mãe e filha guineenses. A primeira conta histórias que a outra traduz para português, e esta última combate a ansiedade da escrita de uma primeira carta de amor.
A língua em que se fala ou escreve figura aqui, simbolicamente, na longa raiz suspensa de uma planta, que ornamenta o vácuo do prédio, e que a câmara percorre à medida da subida dos andares. É qualquer coisa que nos remete para este vínculo cultural e geracional trabalhado por Luciana Fina, numa cuidada encenação que deixa entrar um fôlego quotidiano.
Filme que integrou uma instalação desta artista italiana na Fundação Calouste Gulbenkian (com o DocLisboa), Terceiro Andar procura, na beleza do modo de contar, o traço simples do amor enraizado numa língua.
Inês N. Lourenço, dn.pt



 



“Terceiro Andar" foi um dos filmes de que mais gostámos do último DocLisboa. Quando se estreou, este trabalho de Luciana Fina foi complementado por uma instalação no CAM, na Gulbenkian. Nem o primeiro nem a segunda nos deram de barato os seus segredos. "Em que língua vamos contar as histórias que nos foram contadas?" pergunta-nos uma mulher naquele primeiro grande plano. "Em que língua vamos escrever as declarações de amor?" continua. Não há, descobrimos, uma só mulher, mas duas: Fatumata e Aissato Baldé, mãe e filha primogénita de uma família numerosa. Nem uma só língua, mas duas: fula e português. Fatumata é guineense, Aissato portuguesa. São muçulmanas. Vivem num andar do mesmo prédio da realizadora, no Bairro das Colónias, em Lisboa. Imagina-se que o rastilho do filme deve ter sido tão simples quanto isto: curiosa pela vida intramuros das vizinhas, Luciana Fina tocou à campainha do andar do título e pediu-lhes para fazer aquilo que, à falta de melhor, poderia ser descrito pela palavra 'documentário'. Acontece que este filme escapa-se com inventiva e engenho da prática comum de tal designação.
"Terceiro Andar" é feito de passado, de histórias de amor, também de testemunhos de um presente que nos vai sendo anunciado em surdina — e tudo isto se entrelaça numa matéria sensível que nos exige espírito aberto. Os planos são cerradíssimos. A narrativa vem sobretudo da voice over, capaz de gerar um espaço imaginário que trespassa o que vemos no ecrã. Já o escrevemos: Luciana Fina não informa, porque isso significaria diferenciar, criar uma barreira em relação a quem vemos. "Terceiro Andar" não documenta: partilha. Persegue a hipótese de uma comunhão que aqueles movimentos de câmara entre os pisos do prédio figuram — como uma raiz. É um filme que bate à porta para ficar. "Terceiro Andar" [...]
Francisco Ferreira, Expresso





CORRESPONDÊNCIAS | 10 ABR | IPDJ | 21H30


CORRESPONDÊNCIAS 
Rita Azevedo Gomes
Portugal, 2016, 150’, M/12


FICHA TÉCNICA
Realização e Argumento: Rita Azevedo Gomes
Montagem: Patrícia Saramago, Rita Azevedo Gomes
Fotografia: Acácio de Almeida, Jorge Quintela
Música: Alexander Zekke
Com: Eva Truffaut, Pierre Léon, Rita Durão, Luís Miguel Cintra, Anna Leppänen, entre outros
Origem: Portugal
Ano: 2016
Duração: 150’


PRÉMIOS
DocLisboa 2016 - Prémio Fundação Saramago e Livraria Lello
Caminhos do Cinema Português 2016 - Prémio Melhor Realização
 





CRÍTICA
 Perante as imagens e sons deste "Correspondências", filme cósmico em que é tão fácil entrar, em que sabe tão bem estar, mas que não se 'decifra', talvez seja prudente começar pelo início. Em março de 2006, a Guerra e Paz publicou um livro com a troca de cartas de Sophia de Mello Breyner Andresen e Jorge de Sena, entre 1959 e 1978. Corresponde este período ao exílio, por questões políticas, do autor de "O Físico Prodigioso", primeiro no Brasil e, mais tarde, nos EUA, em Santa Barbara, Califórnia, onde prosseguiu carreira académica, ali permanecendo até à sua morte sem ter voltado a pisar solo luso. Ao livro que a Guerra e Paz intitulou "Correspondência" — trata de uma conversa irregular no tempo ao longo de mais de vinte anos, suspensa pelas esperas do correio transatlântico, mas também feita de muitas outras cartas perdidas, desaparecidas, talvez intercetadas pela PIDE — acrescentou Rita Azevedo Gomes um "s" que a inclui, que nos inclui. Filme epistolar este, que se estreou há dois anos na competição do Festival de Locarno e que, por fim, chega agora às salas? Poderíamos partir desta ideia. E, contudo, outra questão se levanta aqui: como é que se filmam cartas que são em si poemas sem matar a poesia, e logo escritas por dois dos maiores vultos da literatura portuguesa?


Acontece que "Correspondências" não é filme de sublinhados, nem documentário com oráculos nem cristalização tentada de um momento histórico, pois temos sempre a sensação de que aquilo que Rita Azevedo Gomes procura é um contacto com o presente, com uma atualidade em que aquelas cartas-poemas parecem estar a falar para nós. No final de julho de 2016, dias antes da partida da cineasta para Locarno, Rita contava-nos o que a motivou. "A maneira como Jorge de Sena e Sophia descrevem as coisas, as visitas, a expectativa, a euforia da festa e as notícias que fervilhavam, perturbou-me porque, de repente, tudo aquilo era um retrato do que se passava na minha casa. A minha mãe frequentava aquele mundo de escritores e de artistas, conhecia Sophia e arrastava-me, eu miúda de oito anos, para aquele meio. Levava-me ao lançamento dos seus livros. E eu sentia exatamente o que a Sophia diz, esse 'desejo de suprir anos de distância em horas de conversa'. Sei que o livro acordou qualquer coisa em mim. De repente, também a minha vida estava naquelas cartas. Mas foi difícil encontrar uma maneira de fazer coabitar os elementos do filme com estas memórias pessoais. Fiz para cima de vinte versões de montagem, deixei horas de material de fora que me custou muito cortar."
"Correspondências" é um film fleuve de 2h25, habitado por textos sublimes (um diálogo riquíssimo de cumplicidades, confissões, desabafos) mas livre, em si próprio, de uma intenção literária. Parece em simultâneo ser o seu próprio making of, de tal forma nos deixa indícios do modo como foi construído. Arranca com "Metamorfoses", de Ovídio, e passa depois à correspondência entre os dois poetas sem a imposição de uma ordem cronológica. Os poemas ora são lidos ora transformados em diálogos que, contudo, não perdem a sua origem. É um filme feito de situações encenadas, de arquivos verdadeiros (televisivos, sobretudo) e de ‘arquivos simulados’, num gesto de experimentação em que a cineasta recorreu a técnicas digitais e a câmaras de vários géneros, profissionais ou tão-só de telemóveis. É ainda um filme feito de encontros, de velhos amigos e de pessoas que a cineasta foi encontrando pelo caminho. Por aqui passam Luis Miguel Cintra, Rita Durão e Francisco Nascimento, Acácio de Almeida e Mário Barroso, os cineastas Pierre Léon e Edgardo Cozarinsky, também a fotógrafa e atriz Eva Truffaut, e tantos outros que Azevedo Gomes, por puro instinto, convidou para ler as ditas cartas, fosse em português ou em castelhano, em francês ou em inglês, em italiano ou em grego, e até em russo. A língua-mãe dos convidados, bem como os países em que Rita, por determinada circunstância, visitou ao longo dos quase três anos de rodagem (também fruto das viagens ao estrangeiro de promoção do seu filme anterior, o magnífico "A Vingança de uma Mulher"), ditaram o sabor do verbo deste 'filme falado' , coral na sua estrutura, com 71 intervenientes (entre eles a realizadora e um gato que entra numa cena rodada em Paris), diz o genérico final.

Será que a vida é a luta das imagens que não morrem, como escreveu Jorge de Sena? "Para mim" , acrescentou a cineasta, "o mais importante foi o que estava a acontecer na rodagem, as pessoas que encontrei, o prazer que me deu filmar e filmá-las. Acredito que a poesia é universal, venha de que parte do mundo vier. É difícil de traduzir, mas fácil de se propagar." Além disso, "Correspondências" é um filme sem pressas, que nos pede tempo, tal como reza a nota de intenções que a cineasta escreveu, assim concluída: "E o espectador — não o que tem pressa mas aquele que sabe pôr o coração entre o pensamento e a mão — é agora o autor."
Francisco Ferreira, Expresso