ANABAZYS | 27 SETEMBRO | IPDJ | 21H30



ANABAZYS 
 Joel Pizzini e Paloma Rocha
Brasil, 2007, 98’


SINOPSE
Inventário da génese, erupção e ressonância de A Idade da Terra (1980), de Glauber Rocha. Composto por cenas inéditas das 60 horas de material bruto encontrado, é mais do que um tributo ou um relato histórico. Narrado na primeira pessoa pelas vozes de Glauber: o realizador expõe-se inteiramente anos luz à frente do seu tempo, inventa uma narrativa cinematográfica que, 30 anos depois, está finalmente a ser assimilada pelas novas gerações.
 

CRÍTICA
Um corpo na tela e uma voz ecoando no cinema. Anabazys surge como um monstro cinematográfico a se postar como grande obra de arte, obra sobre cinema, sobre criação, genialidade, linguagem, significantes e significados. O filme é sobre Glauber Rocha e A Idade da Terra (1980), mas antes de tudo é um filme com Glauber Rocha. É o corpo, o movimento, a impetuosidade, a ousadia, a polêmica de Glauber, que estão em cena. Joel Pizzini e Paloma Rocha parecem deixar que o cineasta se manifeste no seu máximo, surja imponente na imagem projetada como o grande agitador que era. 
A forma de Anabazys, antes de ser "glauberiana", de buscar semelhanças com a linguagem da figura retratada, é controladamente anárquica, ou anarquicamente controlada. Pizzini e Paloma buscaram em 60 horas de material bruto não só o que achavam relevante inserir no documentário, mas de que jeito isso entraria no manancial de imagens expostas a nós, espectadores. Tanto é que existem repetições de cenas, como as que havia em A Idade da Terra, e isso apenas reforça o caráter libertário e libertador do filme da dupla. Há forte coerência entre o discurso de Glauber e o tipo de filme buscado pelos diretores. Acima de tudo, eles realizaram um projeto que guarda em si ideais do cineasta baiano, sem que, para isso, rendam-se a eles. 
[...] emblemático que, em festivais que buscam ousadias temáticas ou estéticas (o primeiro, via trabalhos de mais experimentação; o segundo, na homenagem a Glauber e Sganzerla), Anabazys surja como defesa aberta de Glauber Rocha por um cinema desgarrado de questões sociológicas/ideológicas. Acima de tudo, é preciso atentar para a linguagem, para as construções formais e estéticas, os desencadeamentos dos sentidos, e só a partir daí iniciar as discussões off-cinema.
Ouvimos ali Glauber bradar que não lhe cobrem posicionamentos ideológicos dentro de seus filmes e abram mente e ouvidos para ver e ouvir, um grito de independência do cinema diante de questões externas que não deveriam se sobrepor a ele. Nisso,Anabazys avaliza na sua própria construção, naquela estrutura que mais parece um delírio de Glauber em pessoa, do artista Glauber, do criador, do mobilizador. Um filme ainda a ser degustado, pensado, discutido, que está muito além de sua figura central, mas absolutamente (e não poderia deixar de ser) ligado a ela.
Marcelo Miranda, filmespolvo.com.br